quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Há muito a ser refletido sobre a misoginia nessa significação do trabalho doméstico. Será que as funções do lar seriam tão desvalorizadas caso fossem consideradas uma função do homem de classe média e alta? Com a fala de Cláudio, é perceptível que a coisa pode mudar de peso a depender de quem desempenha esse papel

Embora o Feminismo tenha conquistado cada vez mais espaço na mídia e em debates políticos, ainda existem questões que dificilmente ultrapassam as citações teóricas. Uma delas é a divisão do trabalho doméstico e o cuidado com as crianças, que continua sendo um problema feminino sem o engajamento dos homens; nem mesmo daqueles que se identificam com as políticas de esquerda.

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as mulheres dedicam, em média, 27,7 horas semanais aos afazeres domésticos, enquanto os homens dedicam apenas 11,2 horas por semana, menos da metade. A situação permanece igual mesmo para as mulheres que trabalham fora de casa, muitas delas sobrecarregadas com uma jornada tripla de trabalho e cuidado com os filhos, causando prejuízos em todas as esferas subjetivas e profissionais. A partir do recorte de raça, chama atenção o fato de que muitas mulheres negras acabam realizando a faxina, o preparo de alimentos e o cuidado das crianças de outras famílias, mas precisam repetir todas essas atividades quando retornam para casa, pois não contam com a ajuda dos homens com quem convivem. O próprio termo “ajudar” já indica o ritmo dos avanços femininos nessa pauta; oferecer ajuda não é equivalente a compartilhar uma obrigação. Vários homens até se disponibilizam para auxiliar as mulheres, lavando uma louça ou deixando as crianças na escola, mas esse tipo de atividade continua sendo encarado como essencialmente feminina.

A situação pode ser desanimadora, mas há homens exemplares que dividem de forma igualitária os cuidados do lar. Embora ainda raros, eles iniciam a pavimentação de um caminho pouco trilhado pela população masculina do Brasil. Cláudio Henrique dos Santos é um desses homens, que decidiu ir além da divisão de tarefas e escolheu, conscientemente, se tornar um “dono de casa” para que sua esposa pudesse crescer profissionalmente sem impedimentos.

Com 42 anos de idade, formado em Jornalismo e pai de uma menina de 7 anos, Cláudio mora na Pensilvânia e conta suas experiências no livro “Macho do Século XXI”, disponível em todo o Brasil. Nas redes sociais, Cláudio compartilha conteúdo voltado para discussões sobre igualdade entre os gêneros. Sua decisão e o início da jornada como “homem do lar”, no entanto, não foi fácil:  “Tive que aprender do zero. Eu era o cara mais machão do mundo. Não lavava um prato em casa. Quando eu era jovem, minha mãe era quem fazia tudo em casa. Ela até que tentava me colocar para fazer as coisas em casa, mas eu ajudava muito pouco. No almoço do domingo, as mulheres faziam o trabalho doméstico e os homens íam assistir futebol na televisão. Minha mãe nunca reclamava, então eu achava que estava tudo bem. Depois que casei, eu e minha esposa podíamos pagar alguém que fizesse o serviço da casa e eu nunca me preocupei com isso. Eu não sabia nem fritar um ovo e acabei aprendendo tudo na marra, principalmente por causa da minha filha”, conta de modo divertido.

Sua filha é mesmo uma personagem principal nesse enredo, pois para Cláudio a educação livre de estereótipos é a melhor maneira de ensinar e garantir igualdade. “Se eu tivesse um menino talvez não tivesse mudado tanto minha visão das coisas”, reflete. Cláudio conta que no começo sua filha estranhava o fato de que nas reuniões escolares, ele era o único pai presente. Hoje, isso é motivo de orgulho e engajamento, pois Cláudio faz questão de conversar com seus amigos sobre o assunto: “O que eu digo aos meus amigos que tem filhos meninos é o seguinte: se você quer que seu filho respeite uma mulher no futuro, você tem que ensinar a ele que não existe brinquedo de menino e de menina ou tarefa de menino e de menina. Do contrário, eles aprendem desde pequenos que são diferentes”. Cláudio é um ótimo exemplo de como um homem feminista pode gerar mudanças positivas em sua realidade, não apenas se limitando ao seu espaço individual e privado, mas estendendo o debate ao seu círculo social e conversando com quem mais precisa de conscientizar: os homens.


O curioso é que Cláudio não se define como feminista e, na verdade, conta que não tem conhecimento suficiente sobre o Feminismo como movimento social. Segundo ele, sua decisão não foi pautada por convicção política, mas por amor e vontade de apoiar sua família. “Mas é claro que essa experiência mudou minha visão das coisas. Hoje eu escrevo no meu blog e faço palestras sobre a igualdade entre os gêneros, até mesmo porque minha família é um grande exemplo de que hoje não existe mais espaço para papéis predefinidos. E eu tenho o maior orgulho de compartilhar a minha história, porque eu vejo o quanto minha esposa batalhou (e ainda precisa lutar demais) para alcançar um posto de liderança numa grande empresa. O caminho para as mulheres é sempre mais difícil e muitas delas não podem contar com o apoio dos maridos em casa. E quero contribuir para que a minha filha possa viver num mundo mais igual no futuro, sem preconceitos, para que ela tenha menos dificuldades do que a minha esposa. Quero que ela tenha todos as condições para ser uma líder no futuro. E que ela tenha a liberdade de escolher o que ela quiser. Até mesmo ser uma dona de casa e cuidar dos filhos, desde que seja uma opção e não uma imposição”.

“Esse ainda é um tema que muitos homens não gostam de discutir. Alguns dos meus amigos talvez não consigam se projetar no meu lugar, mas tenho certeza que muitos deles admiram minha decisão. Até mesmo porque hoje eu encaro isso com muita naturalidade. Além disso, acho que a reação entre os mais jovens principalmente é mais positiva. Alguns amigos, principalemente os mais jovens, acredito que topariam ficar em casa se a mulher pudesse sustentar a casa sozinha”.

Um comentário:

  1. Acredito sim que outras referências masculinas possam e devam ser mostradas, o que me incomoda é que a igualdade de gênero dentro de um lar não está somente na divisão igualitária de tarefas com casa e filhos ou na inversão dos papéis. Uma conhecida tem uma filha de 9 anos e seu marido é dono de casa enquanto ela é "chefa de família", e, ainda assim, desmamou sua filha porque o marido sentia falta do brinquedo. Ou seja, ainda que eles vivam fora de alguns dos padrões patriarcais, ela continua sendo submetida a outras formas de opressão.

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